AZUL CONQUISTA STATUS EM PORTUGAL E NA CHINA

 

A quem pergunta por que a Azul progride tão velozmente, colecionando conquistas nos mundos da aviação comercial e das finanças, enquanto outras brasileiras do mesmo setor avançaram entre um tranco e outro, costumamos citar como causa principal o fato que o maior desenvolvimento de algumas empresas aéreas de pequeno e médio porte foi devido à presença nelas do dono & fundador.

A história da aviação brasileira, desde o século passado, tem numerosos exemplos que vão da Real á Transbrasil ou de Vasp à Varig e incluem Tam e Gol, que progrediram até quando foram orientadas por seus fundadores. Com o imprevisto falecimento do dono da Tam e a forçada retirada do criador da low-fare Gol , em época recente as duas perderam grande parte do brilho conquistado na fase inicial de suas atividades, enquanto a Real foi vitima dos excessos expansionistas de seu fundador e a Varig ,após a morte de Ruben Berta cresceu demais para uma empresa sem ajuda governamental e,ainda, hostilizada pelas congêneres nacionais.

Isto pode não hipotecar o futuro da Azul, mas está fora de dúvida que ela é produto exclusivo da habilidade de seu fundador, desde o dia em que desembarcou no Brasil vindo dos States até suas triunfais caminhadas em Portugal e agora na China.

David Neeleman, dono e CEO da empresa veio ao Brasil com pretensões menores, tendo como plano de impacto a estruturação no país de uma rede de vôos entre cidades do norte e nordeste ignoradas pelas companhias nacionais operantes. Foi um achado que lhe garantiu o apoio governamental e que conquistou de imediato o ministro da Aeronáutica da época, lhe abrindo as portas da BNDES, que até então haviam ficado hermeticamente fechadas à agonizante Varig. E sua imagem junto ao governo nacionalista cresceu com uma consistente compra de pequenos aviões da Embraer,a construtora que na época procurava conquistar mercados estrangeiros que atualmente se abriram à sua produção.

A rede doméstica da Azul se expandiu com gradual sucesso, e aos poucos incorporou também destinos maiores daqueles inicialmente programados elevando passo a passo a sua participação no tráfego doméstico. Mais recentemente veio o anuncio da abertura de vôos para os Estados Unidos, enquanto se abria a opção de união com a Tap portuguesa. Com o apoio ostensivo da presidente Dilma – após ter bloqueado as pretensão de Efromovic no primeiro round da disputa pela empresa – Neelman afastou de uma vez a pretensão da Avianca ,e conseguiu do governo de Portugal a aceitação de sua duvidosa formula de composição do capital, com a participação de um complacente sócio português.

Não se sabe exatamente como Neeleman estruturou sua participação acionária num leilão que valia centenas de milhões de euros, nem como convenceu as autoridades e o governo de Portugal em relação à disponibilidade de fundos para o leasing de uma frota de mais de 50 aeronaves, pois no começo deste ano as finanças da Azul não estavam à altura do prestígio operacional por ela conquistado.

Até outro dia, quando foi anunciada a compra pelo conglomerado chinês HNA Group de 23,7% de ações da Azul por cerca de US$ 450 milhões: o HNA representa o maior grupo de aviação da China, integrado por 14 empresas que operam no país e no exterior com 561 aeronaves. O capital chinês ficou com ações preferenciais, sem direto a voto, enquanto 67% das ordinárias, que tendo direito a voto controlam a empresa, estão nas mãos Neeleman. Também esta iniciativa, assim como o anterior acordo de financiamento assinado com o Banco Industrial e Comercial da China , visa garantir à Azul disponibilidade de capitais para sua expansão e para o leasing de aeronaves, na difícil conjuntura da economia brasileira. Antes a empresa havia tentado sem êxito abrir seu capital na Bolsa de São Paulo.

Nesse investimento há alguns pontos de interesse: 1) o montante da participação chinesa, que lhe confere o direito a um assento no Conselho de Administração, índica que a Azul foi avaliada em cerca de R$ 7 bilhões, valor esse que representa um pulo bastante grande para uma pequena aérea aqui fundada apenas na década passada; 2)na comparação são poucos expressivos os investimentos de US$ 100 milhões feito pela Delta Air Lines na Gol ,assim como o anterior ,pelo mesmo valor, que a United/Continental fez na Azul; 3) não é fácil entender como a exigência de lei que limita em 20% a participação de capitais estrangeiros nas empresas aéreas do país se concilia com os quase R$ 2 bilhões do atual investimento chinês, inclusive lembrando que em Portugal o presidente da Azul fez a operação contrária, tendo ficado com um número de ações ordinárias inferior aquelas preferenciais de seu sócio português, - para cumprir às exigência da União Européia – mas com elas controla a administração da nova Azul/Tap.

Segundo Brasília, o valioso investimento do HNA além de complementar a apreciada presença de capitais chineses no país, demonstra que o grupo acredita no desenvolvimento do Brasil, em contraste com a aparente desconfiança que se verifica em outros países.