PETRÓLEO MAIS BARATO: PRÓS E CONTRAS

 

Durante décadas as empresas aéreas tem identificado no custo do combustível o principal responsável não somente por suas perdas, mas também pelo elevado preço das passagens. A cada final de ano uma Gol ou uma American  comentavam o ônus representado pelo combustível,calculado pelas brasileiras em cerca de 40% dos custos operacionais e em volta de 35% pelas companhias estrangeiras.De fato as nacionais o adquiriam da Petrobras ,que notoriamente calculava o preço do combustível nos mercados de origem mais  todas as eventuais despesas para transportá-lo até o Brasil, apesar de estar revendendo às empresas aéreas nacionais a sua produção devidamente refinada aqui e supostamente bem mais barata.E ainda hoje de nada valem os protestos que vem da época de prestígio da Petrobras, que fazia questão de enfatizar “o petróleo é nosso”,mas excluía da afirmação os barris refinados no país e revendidos como combustível importado às companhias aéreas.

De repente, em meados de 2014, nos mercados internacionais o preço do petróleo começou a cair e a baixa foi atribuída á super-produção internacional, fato algo surpreendente após que Iraque e Líbia cessaram de alimentar com o seu abundante ouro negro os mercados da Europa. A suspeita é que se trate de uma iniciativa dos países grandes produtores, como a Arábia Saudita, interessados em eliminar dos mercados os concorrentes, para ficarem com mais controle da produção e dos preços. De fato há países cujos custos de produção do petróleo são muito mais elevados daqueles da maioria dos integrantes da OPEP e que não poderiam vender por muito tempo o produto com prejuízos.

Após a primeira baixa surpreendente de julho de 2014, o petróleo Brent tem mantido a tendência, chegando a ser comercializado nos mercados internacionais por cerca de 60 dólares ao barril, com pontas mínimas inferiores a US$ 50. No passado fim de semana estava sendo vendido a US$ 58,94 e permanecia bastante firme a previsão de que, ao longo de 2015, dificilmente voltaria a subir acima de US$ 67,00 .Mas há analistas que não excluem que o preço volte a subir no médio prazo,sem aviso prévio,dependendo dos objetivos comerciais das maiores produtoras.As hipóteses sobre essas mudanças são duas: a primeira as considera apenas como manobras de breve ou médio prazo ,enquanto a segunda as identifica como fruto de alterações estruturais  que terão importantes reflexos nas atividades  produtivas de inúmeros setores  industriais.

Para as empresas aéreas os efeitos do menor preço do combustível extraído do petróleo poderão alcançar vários segmentos de suas atividades. Elas com certeza deverão, a partir de 2016, garantir-lhes lucros elevados, a não ser que elas o repassem em parte aos usuários sob a forma de descontos. É previsível também o crescimento dos transportes aéreos, se eles oferecerem tarifas acessíveis a mais classes sociais. E  como consequência haveria a necessidade de mais aeronaves, oferecendo novas oportunidades de crescimento às empresas construtoras e causando novos problemas aos aeroportos para o atendimento do tráfego.

Poucos analistas apóiam todas essas previsões, por não acreditarem que as empresas aéreas abrirão mão de lucros que até 2014 procuravam obter de quaisquer setores de seus serviços, num show de egoísmo que em muitas delas transformou o prato quente num sanduíche sem graça,quando não o aboliu totalmente, e em outras aéreas reduziu a assistência em terra e a bordo, além do tamanho dos assentos e do espaço para esticar as pernas na classe econômica.

De outro lado, se muitos setores econômicos terão benefícios imediatos do custo menor do petróleo, muitos países sofrerão com a redução das receitas de exportação do produto, com reflexos em seus balanços e em seus projetos de desenvolvimento. Segundo alguns economistas, cada redução de 10% no preço do petróleo pode contribuir a aumentos de cerca de 0,1% no PIB.

Ainda em relação ao mercado específico da aviação comercial, se mantivendo nos atuais níveis de redução (cerca de 50%), o novo custo do querosene minimizará o impacto e o valor real da “fuel efficiency”, tão divulgados na promoção dos novos modelos de aeronaves – como o A320neo, o A350 ou o 737Max - e até os gastos excessivos atribuídos aos reatores do A380 ficarão aceitáveis pelas empresas operadoras.

Entretanto a IATA, que é a associação de mais de 240 companhias aéreas do mundo, já previu para este ano lucros globais das empresas por US$ 25 bilhões, dos quais cerca de US$ 4 bilhões obtidos na Europa, onde depois de anos de dificuldades o resultado é ainda mais significativo, lembrando os prejuízos causados à AirFrance/KLM e à Lufthansa pelas greves de 2014. Considerando as perdas de bilhões de dólares acumuladas pela industria de transportes aéreos em geral ,a perspectiva de lucros em 2015( e talvez por mais algum tempo) é animadora,em particular para os investidores em suas ações. Da mesma maneira, seriam iniciativas muito apreciadas pelos passageiros aquelas das empresas que descontassem do preço das passagens parte dos lucros do “fuel” : afinal os viajantes também merecem,como  os investidores,tirar alguma vantagem da conjuntura favorável.