A ATW RELATA DETALHES DO CONTRASTE ENTRE EMPRESAS AMERICANAS E DO GOLFO

 

O numero de junho da revista Air Transport World, ATW, dedica quatro páginas à analise dos motivos reais dos contrastes entre as americanas Delta, American, United e as empresas do Golfo, Emirates, Qatar e Etihad, atuais objetos de investigação governamental. No ar há a possibilidade de denuncia do acordo de Open Skies em vigor e a imposição de uma serie de restrições às operações das três asiáticas, culpadas de crescerem demais às custas de subsídios governamentais, com prejuízo para as congêneres dos Estados Unidos, que estão perdendo tráfego nas rotas entre os respectivos países.

O artigo da ATW, do qual reportamos em tradução libera partes de algumas considerações originais, levanta a pergunta “why now?”, porque agora, após dez anos de operações das empresas do Golfo nos Estados Unidos, estando em pleno vigor o acordo que elimina restrições as operações aéreas nos dois países? Teria sido o vôo entre Nova York e Dubai com escala em Milão, que a Emirates opera desde outubro de 2013, assim como já operava em regime de quinta liberdade via Frankfurt entre Dubai e Newark? A ligação entre NewYork e Milão passou a ser considerada “predatory” depois que a Emirates substituiu o original B777 com um de seus Airbus A380: parece que foi o potencial da empresa árabe de uma frota de 140 aeronaves A380, incluindo as encomendadas, a espantar as americanas.

Elas começaram a questionar os subsídios de bilhões de dólares concedidos ao setor aéreo pelo governo do Oriente Médio, infringindo uma das proibições dos acordos de Open Skies: com esses fundos, estimados em cerca de US$ 42 bilhões, as aéreas de Dubai teriam ampliado suas frotas, seus destinos e suas campanhas publicitárias, com prejuízo pare as empresas dos Estados Unidos que estariam perdendo a preferência dos passageiros, devido à qualidade superior de serviços oferecidos pelas rivais. Sem contar os embarques perdidos em  escalas intermediárias.

 Inicialmente American, Delta e United pediram ao governo americano para não autorizar mais vôos às congêneres, além daqueles já operados para Chicago, Los Angeles, New York, Orlando e Washington, (sem contar os programados pela Qatar para 2016), em vista do enorme aumento de suas ofertas de assentos. Como suporte elas citaram  afirmações não pertinentes, impropriamente modificadas, do texto “The rise of the Arabian Gulf carriers...” do acadêmico em transportes aéreos Frankie O`Connell, que desmentiu o teor das citações feitas.

 A seguir o governo Obama pediu a três Departamentos de realizar até o final de maio a revisão do relatório das aéreas americanas, que com publicações e em conferências visavam conquistar o apoio da opinião pública. A American acrescentou ao caso uma carga política, insinuando que o país não deveria permitir que empresas estrangeiras recebedoras de financiamentos elevados de seus governos atuassem no país, sem que sejam tomadas providências. A Delta lamentou que não pode operar para a Índia por não dispor de uma frota com bastante capacidade para competir com as subsidiadas empresas do Golfo. De seu lado a Etihad reagiu acusando “as três maiores empresas aéreas de controlar  não somente  o tráfego dos Estados Unidos,mas do mundo inteiro, sem contar as três Alianças, que por sua vez controlam  50% do tráfego mundial,” de estar tentando fechar a porta a qualquer competição,verdadeira ou potencial” .

Entretanto um representante do governo americano se recusou de confirmar se e quando serão fixadas consultas com os governos do Golfo, mas disse que a Casa Branca tomou seriamente o pedido de reuniões e as acusações sobre os subsídios. Ao mesmo tempo um representante dos Emirates excluía a possibilidade de ser atendida a solicitação de congelamento da capacidade das empresas árabes ao nível de 28 de janeiro passado, pois isso representaria suspensão do acordo de open skies. O CEO da Etihad, James Hogan, em speech na Câmara Americana de Comércio foi explicito afirmando: ”A Etihad é um David que enfrenta Golias desde 2003, quando começou a atuar. Em virtualmente cada mercado tivemos que enfrentar competição pré-existente, com competidores bem instalados, boa estruturas, planos de vendas e de marketing, nomes conhecidos e usuários definidos. Para conquistar esse mercado tivemos que lutar duramente e com habilidade. Isso se chama competição”. E em maio passado a mesma Etihad divulgou que nos últimos 15 anos as três empresas americanas receberam “benefits” pelo valor de US$ 71,5 bilhões .

O texto de Karen Walker, chefe editora da ATW, evidencia a seguir as vantagens da liberalização do tráfego oferecida pelos acordos de Open Skies ás transportadoras americanas de cargas e às pequenas empresas, quais a Alaska Airlines e a JetBlue Airways, que não pertencendo às Alliances globais se beneficiam de codeshares com aéreas de outros países. Ela reporta os comentários da British Airways ,enviados ao governo americano ,no qual é dito que as referências ao subsídio “não são comprovadas” e que em todo caso esses supostos investimentos nas empresas aéreas árabes não se diferenciam  dos vários investimentos em companhias de aviação feitos no passado por estados ou por governos,”dos quais ninguém se preocupa minimamente”.

O artigo da ATW reporta também que, fora dos Estados Unidos, alguns sênior executives de aviação afirmaram à revista que viam a evidencia de que o aumento de capacidade das empresas árabes não estava baseada no tráfego e nos elevados load factors, mas que acontecia quando “elas estão aguardando a chegada de outra nova aeronave”.  Deve ter sido esse comportamento que chamou a atenção das empresas americanas, pois o contraste atual foca o perfil da futura aviação comercial, diferente da indústria marítima, ameaçado por atitudes próximas de “predatórias” evidenciadas pela Emirates. Essas novidades na indústria questionam o futuro desenvolvimento da aviação internacional, que seria loucura deixar à iniciativa de quem “has de most aggressive state”.

O problema não é de fácil solução, conclui o artigo da ATW: as empresas do Golfo tem trazido novos serviços e nova competição no mercado, sob a garantia da sigla dos Open Skies. Não está claro como a disputa acabará,mas contudo, após ter investido considerável energia e muito dinheiro para divulgar o seu caso ao governo, é evidente que as empresas americanas não estão dispostas a “ to walk away” de mãos vazias.