A NOVA TAP DE NEELEMAN & CIA.

 

Desde quarta-feira David Neeleman (49,9%) é dono, junto com seu sócio português Humberto Pedrosa (que ficou com 59,1%), de 61% da aérea portuguesa TAP. No evento transmitido ao vivo por alguns canais de TV do país, Neeleman fez questão de enfatizar que continuará a estratégia de expansão no Brasil, onde a TAP fatura 40% de sua receita, prevendo a abertura de mais oito a 10 rotas para o Brasil e 10 para os Estados Unidos, mas inicialmente no país serão aumentadas as freqüências diárias para varias cidades. Nos EUA, a nova TAP deverá ter além de Nova York e Miami mais destinos como Boston, Washington e Chicago, e talvez Baltimore e outras cidades com numerosas coletividades portuguesas.

O consórcio Gateway, que representa os dois grupos, prevê investir “600 milhões de euros até 2017 na TAP: cerca de 345 milhões para o reforço do capital da empresa, dos quais 270 milhões depositados ainda este ano e o restante em 2016”. Para o leasing de aviões está previsto o comprometimento de 250 milhões, sendo 150 milhões no fim de 2016 e 100 milhões em meados de 2017. O valor final do investimento, porém, pode ser maior e chegar a 800 milhões. O consorcio assumiu as dívidas da Tap, estimadas em mais de 1 bilhão de euros ,e conta com os aportes de bancos da China,Reino Unido e Alemanha,entre outros menores, que já externaram o seu interesse em financiar os projetos da empresa.

O plano de renovação da frota da TAP, prevê a compra de 53 aviões, todos da fabricante francesa Airbus, cujo contrato ainda não foi firmado, mas já foi decidido que serão adquiridos 14 A330-900neo (com dois corredores internos), 39 A321neo e A320-neo (corredor único).O uso de aviões menores, de um corredor, entre os dois continentes, visa reduzir os custos além de facilitar o aumento do número de destinos e freqüências oferecidos pela empresa. Neeleman assinalou que foi cancelado o pedido anterior feito pela Tap de compra de modelos A350 (avião de fuselagem larga, dois corredores e alcance maior que o A330) e enfatizou que sendo o objetivo da nova Tap "fazer dinheiro "serão escolhidas rotas onde seja possível competir sem problemas” : “Por isso estamos excluindo um voo entre Lisboa e a China,que exigiria aeronaves A350 e acabaria com o capital da Tap".

No evento transmitido ao vivo por alguns canais de TV do país, Neeleman fez questão de enfatizar que continuará a estratégia de expansão no Brasil, onde a TAP fatura 40%, enquanto Pedrosa,que na cerimônia teve destaque menor,fez questão de evidenciar aos ministros e convidados presentes que a Tap continuará sendo uma empresa portuguesa,com Lisboa como hub e mantendo em Portugal o seu centro de decisão.Neeleman confirmou as afirmativas do sócio pedindo desculpas por seu sotaque gringo de "brasilcano" e afirmou "Podem confiar na gente". Em resposta o ministro da Economia, Antonio Pires de Lima, observou que esse era um “dia de esperança para a TAP” e junto com outras autoridades portuguesas insistiu em enfatizar que, pelas regras de concorrência da União Europea, o governo não podia capitalizar a aérea nem privatizá-la e que será o consorcio Gateway quem garantirá o futuro da Tap.

Mais tarde, Neeleman e Pedrosa deram entrevista coletiva, na qual o presidente da Azul mostrou um adesivo colado no seu celular com a frase Azul loves TAP, tendo o logo das duas companhias e um coração no meio. A seguir confirmou já ter acertado a encomenda dos 53 aviões da Airbus,mas foi menos explicito em relação aos aviões da Embraer. A expectativa era de que o consórcio, com o apoio do BNDES comprasse aparelhos da brasileira para renovar a velha frota da Portugalia, a filial regional da TAP que opera voos mais curtos na Europa, mas o assunto não teve uma melhor definição, assim como não foi esclarecido como será resolvido o problema do setor de manutenção da TAP no Brasil, que tem dado prejuízos, mas que atualmente devido ao cambio do real mais baixo se encontraria em situação melhor .

Segundo Neeleman a expectativa no consórcio é de que a operação de compra da TAP seja aprovada entre agosto e setembro pela Comissão Europea, com um pequeno atraso devido às feiras de verão,. Em seis meses a nova equipe quer apresentar novos produtos, incluindo leitos na classe executiva e o SkyCouches,que é uma espécie de sofá . “Azul e Tap ainda são separadas",fez questão de enfatizar Neeleman , pois “quem comprou parte da aérea portuguesa foi eu”. Quanto ao apoio do governo brasileiro na operação de aquisição da Tap,em resposta à pergunta "se esse apoio foi decisivo" respondeu "Bom,ele sempre falou que ia dar apoio."                                                                         Ele se dirigiu com insistência e simpatia aos 12 mil empregados da TAP, enfatizando que estavam deixando de ser funcionários de uma empresa pública e passarão para uma empresa privada. Disse que não vai demitir, mas precisará aumentar a eficiência na companhia,prevendo que com o fim de indefinições e um plano arrojado de eficiência, a TAP poderá voltar a dar lucros já em 2016. Quanto à colocação de ações da empresa portuguesa no mercado, “isso pode demorar alguns anos”.

O futuro de Fernando Pinto, que presidiu a companhia nos últimos 15 anos, pareceu definido pelo laço de confiança existente com Neeleman,a quem ele abriu as contas da Tap para mostrar-lhe que a compra podia ser um bom negócio. Em resposta à pergunta de jornalistas ele declarou: "Irei sair da Tap no dia em que considerar que a empresa está no bom caminho, no caminho do crescimento."

Quanto ao risco de o Partido Socialista, se vencer as eleições este ano, tentar reverter a privatização, Neeleman disse que o interesse do consórcio é ter o controle da TAP e não participação minoritária e sugeriu aos portugueses decidir de uma vez se são, afinal, a favor ou não da privatização.

Outro detalhe importante do negocio ,pouco divulgado pela imprensa brasileira, está relacionado com o ganho adicional que o Estado poderá gerar com a privatização da TAP ,dependendo do desempenho financeiro que a companhia terá este ano. Um resultado operacional de 280 milhões de euros garantiria um encaixe extraordinário de 134 milhões com a venda das ações da empresa. Para tanto, sendo que esse valor nunca antes foi atingido,o Governo pediu à equipe de Fernando Pinto que apresentasse ao Ministério da Economia um plano com as medidas operacionais adequadas, difíceis de serem detalhadas face à falta de consenso do funcionalismo da empresa.

Estes 280 milhões de euros de resultado ajustado (a diferença entre receitas e custos operacionais, excluindo encargos como o leasing dos aviões) haviam sido fixados como meta no plano de negócios que a TAP entregou aos investidores no início de 2015. E agora o consórcio Gateway vencedor do leilão, faz depender do cumprimento daquela meta um pagamento adicional de 134 milhões de euros, dos quais 90 milhões nos próximos quatro anos, se houver uma oferta pública de venda em bolsa.

Os novos donos comprometeram-se a pagar dez milhões de euros por 61% da companhia de aviação e outros seis milhões pela opção de compra dos restantes 34% (o 5% será vendido aos trabalhadores). Pedrosa e Neeleman vão ainda injetar 338 milhões de euros até ao final de 2016 a título de capitalização, havendo um possível desconto proporcional à diferença entre o compromisso de 280 milhões e o resultado real da Tap em 2015.

Na serie histórica,somente em 2009 o Ebitdar da empresa (ou seja o resultado antes de juros,impostos,amortizações e rendas eventuais de leasing da frota) se aproximou dos 280 milhões, chegando a 272 milhões de euros.Em 2014 o indicador ficou em 178,3 milhões, evidenciando que para alcançar 280 milhões neste ano,além de contar no nível ainda relativamente baixo do preço do combustível a empresa deverá rentabilizar algumas rotas em déficit operacional e tentar frear o peso negativo da redução dos preços médios das passagens,além de evitar que as medidas causem instabilidade laboral.