MAIS BALANÇOS NEGATÍVOS DERRUBARAM A VARIG

 

Quando em 1999 a Varig encerrou o balanço de suas operações com um faturamento de R$ 4,4 bilhões, segundo o presidente Fernando Pinto existia a base para administrar o passivo da empresa com o BNDES,Banco do Brasil, Infraero, INSS e as instituições financeiras privadas. A Comissão de Valores Mobiliários, CVM, havia sido informada que a dívida estava reduzida a US$ 1,7 bilhão.

Mas o BNDES nunca respondeu oficialmente com propostas práticas ao pedido de participação no financiamento apresentado pela Varig, por um valor que não havia sido divulgado mas era estimado em cerca de R$ 400 milhões : entretanto grupos interessados em prejudicar o acordo divulgavam que o montante real da dívida estava bem acima dos 2 bilhões de dólares, intensificando os rumores de iminente colapso financeiro da empresa . Foi assim desperdiçada aquela que foi a mais seria possibilidade de reação que se ofereceu à Varig nesses últimos anos, para amortizar as dívidas e investir na frota. A Infraero, credora da aérea por cerca de R$ 300 milhões, até fez circular um plano supostamente governamental que transformaria as dívidas de qualquer origem (incluindo GE e Boeing) em participações acionárias numa nova empresa chamada de Super Varig, que seria depois vendida a um grupo privado. Mas o presidente da entidade exigiu em declarações públicas que, para começo de conversa, a FRB fosse afastada da direção da empresa, enquanto se multiplicavam os comentários que atribuíram  os resultados negativos que iam se acumulando na Varig  às  demoras de suas “tramitações burocráticas em responder rapidamente às emergências “.

E vieram os ataques terroristas às torres de Nova York e a disparada do dólar, causando novos e inesperados problemas para a Varig que, após ter registrado nos primeiros nove meses de 2000 perdas de R$ 24,7 milhões viu o prejuízo subir para R$ 608,3 milhões no mesmo período de 2001 e seu patrimônio líquido ficar negativo em R$ 757 milhões, contra os R$ 5,1 milhões positivos dos 9 meses do ano anterior.

Paralelamente, as mudanças internas e as tentativas de reestruturação executiva da empresa haviam sido ineficazes: entre elas a criação de três holdings que transferiram à novata FRB-Par (Fundação Ruben Berta Participações) também o controle da Rio Sul e da Nordeste. Em reunião dramática o seu Conselho de Administração propôs congelar vários projetos, entre os quais as  demissões de mais funcionários, a redução do número de vôos,a devolução de aeronaves ,além de exigir a saída de Fernando Pinto da presidência.Mas com o apoio político do Conselho de Curadores, que era o órgão superior, nenhuma das propostas foi aceita. Em reação todos os membros do Conselho de Administração, que antes se haviam pronunciado contra a criação das três holdings, se demitiram.

Na época exercia a presidências dos dois Conselhos o temido Yutaka Imagawa, que após ter chefiado por anos com extrema eficiência a Contabilidade Central da empresa, em junho de 2000 quando foi oficializada a reestruturação societária ocupou a presidência do Conselho da FRB-Par. E foi nomeado vice-presidente quando Ozires Silva assumiu a presidência da Varig.

Nesse ínterim, apesar de ser evidente que estava com os dias contados, Fernando Pinto manteve a sua política de redução dos custos administrativos e operacionais da empresa, incluindo a cessão à Tap das oficinas do Centro de Manutenção, que enfrentavam uma onerosa crise trabalhista prejudicial à eficiência da produção. Mas nada  acalmou as tensões internas , pois apesar dos problemas financeiros a luta pelo poder continuava em todos os níveis : e o presidente acabou sendo vencido pelas  pressões do grupo que exigia o seu afastamento . Com ele a Varig perdeu o último presidente com conhecimentos técnicos suficientes e capacidade para exercer o cargo de CEO, numa indústria que já viu no comando das empresas aéreas executivos de renome internacional. Tudo mudou de rumo na Varig após a sua saída pois , sem reais perspectivas de financiamento , sobrava como única opção apenas a procura da forma mais conveniente de venda da empresa a uma congênere.

Entretanto a presidência passou a Ozires Silva, com Harro Fouquet na presidência do Conselho e Percy Rodrigues na presidência executiva. Os méritos de Fouquet e Rodrigues eram bem conhecidos, pois se haviam acumulado e evidenciado ao longo de suas vidas profissionais. Ozires Silva foi a novidade absoluta. Ele foi chamado numa conjuntura da indústria particularmente adversa à Varig, com a consolidação da Tam no mercado doméstico e o lançamento pela Gol de tarifas baixas - além da concorrência de quatro aéreas americanas no setor internacional. Alguém escreveu que Ozires foi “o poeta que faltava à Varig”.

(O próximo capitulo será o último dedicado a este breve revival de episódios dos anos finais da Varig, um ícone nacional que ainda não teve a sua história devidamente contada.) 6/ Continua.