ENCERRANDO LEMBRANÇAS AINDA VIVAS

 

Ozires Silva havia atuado em praticamente todos os setores da aeronáutica, menos no operacional, e gozava de grande prestígio no governo. Na Varig suas intenções esbarraram contra as limitações impostas pelos problemas financeiros que afetavam o pagamento dos leasings e das dividas restantes. E teve que enfrentar dificuldades internas, quais a mobilização da associação de pilotos (Apvar), que após os ataques terroristas a New York se opuseram à demissão de 1.700 funcionários, enquanto a empresa suspendia todos os investimentos e paralisava 13 aeronaves (14% da frota), para cortar o número de vôos e reduzir problemas operacionais e custos, disponibilizando aeronaves para serem devolvidas aos leasings. Mas no cenário recessivo da época houve o aumento progressivo das contas vencidas junto da GE Capital, de bancos nacionais, da BR Distribuidora de querosene e do INSS e da Infraero, até obrigando a Varig a dividir em dois períodos o pagamento dos salários.

O novo presidente se empolgou com o projeto de comércio virtual e eletrônico E-Varig Plata, - que operaria em dois meses na América Latina - e com o “resultado sensacional” do primeiro mês de funcionamento da Rotatur, enquanto planejava realizar vôos noturnos e pela madrugada, utilizando inclusive “aparelhos de outras empresas”. Ele perdeu parte do entusiasmo após participar de uma reunião com o ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, que “colocou um freio nas expectativas das companhias” em resposta a um documento sugerindo 14 medidas para reduzir os efeitos negativos da crise econômica sobre a indústria. A partir de então ele sustentou a necessidade de “mudanças sérias na estrutura do mercado aéreo brasileiro”,afirmando “somos  ilhas cercadas de governo”. Entre suas declarações mais dramáticas foi a afirmação de que só no primeiro semestre de 2001 a Varig teve R$ 1 bilhão de prejuízo, enquanto as empresas aéreas americanas previam no ano intero perdas coletivas de US$ 1 bilhão: “mas nos Estados Unidos a desregulamentação aconteceu há 23 anos e foi aprimorada há oito. Com isso elas comeram a concorrência e ficaram com mais de 60% de nosso tráfego”. E não deixou de fantasiar afirmando :“ nossa previsão era comprar 110 aviões,que valem uns 5 ou 6 bilhões de dólares, nos próximos cinco anos. Agora precisamos aguardar.”

“Ozires Silva não foi uma escolha errada” – pode ser lido num das dezenas de textos escritos sobre a sua performance na Varig,” mas foi uma indicação inútil ,numa época em que qualquer decisão devia antes passar pelo crivo dos fundos disponíveis em caixa e dos vencimentos a ser postergados.Ozires era um aposentado com um excelente curriculum, que deveria ter sido contratado apenas como Public Relation. Como realmente foi, por sua simpatia pessoal, por sua educação e pela maneira simplista com que tem expostos seus pontos de vistas“. No mundo da aviação comercial, dominado pela técnica e pela luta diária à procura de novos usuários, talvez estava faltando um poeta. Na Varig, em particular, que já teve uma personalidade empreendedora como Ruben Berta, um hábil e frio negociador como Erik de Carvalho, um esforçado executivo como Rubel Thomas,(ou um dinâmico inovador como Fernando Pinto), “nunca havia transitado um poeta.”

 Com ele a empresa encerrou um período de quase dez anos, em que sua performance como aérea acompanhou e refletiu os altos e baixos da conjuntura econômica nacional. A Varig pareceu um gigante no final da década de 80, desfilando no universo da aviação comercial com seus 747, seu serviço de bordo first class, o melhor atendimento em suas magníficas instalações e ticket offices, seu carinho para os funcionários expresso através da Fundação. Críticos atentos enfatizam que faltou-lhe iniciativa e coragem para ficar menor quando ainda poderia ter cortado centenas, dos milhões de dólares que a levaram à moratória. Acabou tendo que entregar seu destino antes aos burocratas do BNDES, que nada resolveram, e na fase final,quando a venda se apresentava como a ultima solução, aos financiadores anônimos da Bolsa.

Com ela se foram os sonhos de milhares de funcionários, as gratas lembranças de milhões de usuários, as imagens de aviões poderosos como nenhuma outra empresa nacional teve até agora, de aeromoças dedicadas (ainda há quem as recorda nas primeiras viagens internacionais atuando com classe nas acanhadas galleys da época e até cuidando, nas paradas, da lavagem dos pratos) e, entre os episódios mais amenos, a longa entrevista à Playboy dada em 1990 por Helio Smidt, presidente da Varig. Nela, entre inúmeras citações de fatos ligados à indústria e  à empresa, não deixou de lembrar a sua autoria do “pequeno caseado” que mandou abrir em todos os guardanapos de bordo  aérea, para permitir seu encaixe no primeiro botão da camisa dos viajantes; ou os relatos de encontros dos representantes da Varig nos aeroportos de Roma,Nova York ou Paris com estranhas personalidades de passageiros VIP,recebidos com a classe inimitável de sempre. E o tucano ? No livro “O tucano da Varig” pode ser lido: ”Um dia um tucano surgiu na televisão. Era o tucano da Varig. Um tucano turista, óculos escuros, bolsa a tiracolo, uma camisa listrada colorida...”. Virou a mascote da empresa, um dos comerciais de maior sucesso, repetido por anos na época natalina.The end.