THE ECONOMIST’ FAZ MAIS UMA RADIOGRAFIA IMPIEDOSA DA CRISE BRASILEIRA

 

Pela terceira vez a revista inglesa “The Economist” dedica a sua capa e várias páginas à economia brasileira. Na edição de 2009 evidenciou o seu otimismo em 14 páginas de texto e no título de capa “Brazil takes off”: nela o Cristo do Corcovado se apresentava decolando. Quatro anos mais tarde, em 2013, no mesmo cenário do céu carioca o Cristo realizava uma manobra perigosa, dando a impressão de estar precipitando e o texto, de outras 14 páginas, confirmava a dúvida “Has Brazil blown it?” impressa na capa. “A edição atual, há poucos dias nas bancas, sob o titulo ‘Brazil`s quagmire” identifica o país numa passista de escola de samba semi-coberta por vegetação verde-amarela, que supostamente representa o “atoleiro” no qual o país se meteu, e há também uma longa analise especifica sob o título “The crash of a titan” ilustrada por dois gráficos que evidenciam indícios da recessão que “está chegando”. O primeiro gráfico apresenta a evolução salarial de 2004 a 2014,que segundo dados do Banco Central do Brasil cresceu quase 60% no setor público e quase 40% no setor privado, enquanto o produto interno bruto aumentava na década de pouco mais de 12%.No segundo gráfico, dedicado à dívida brasileira em dólares sob o título “Worse than it looks” (peor de como parece ) , se verifica que nos últimos cinco anos o seu valor em dólares subiu de US$ 100 bilhões para US$ 250 bilhões, correspondentes em reais a respectivamente cerca de 210 bilhões e  655 bilhões. Os gastos do Brasil em “interest payments” somaram em 2014 nada menos que  R$ 311,4 bilhões de reais, com um aumento de 25% sobre os efetuados em 2013 .

O jornal “Valor” relata os pontos principais do editorial da” The Economist”, enfatizando que a atual estagnação do país (equivalente ao atoleiro citado pela revista) abre o caminho a uma prolongada recessão, a uma elevada inflação que encarece tanto o dia-dia dos consumidores como o pagamento de suas dívidas, reduzindo ainda mais os investimentos, prejudicados pelo escândalo da corrupção na Petrobrás que ao atingir as maiores construtoras do país se estendeu a uma ampla rede de atividades econômicas. Sem contar a desvalorização de 30% do real no câmbio com o dólar,que representará este ano um pesado ônus para as empresas nacionais com dívidas em moeda estrangeira que chegam a cerca de US$ 40 bilhões.

A essas dificuldades de natureza econômica e financeira o editorial da revista acrescenta os problemas políticos internos, evidenciados pela caída da taxa de aprovação da presidente Dilma de 42% para 23% em menos de dois meses após a eleição, e pelos escândalos ligados à Petrobras, à estatal da qual ela ocupou a presidência do conselho. Mas o “The Economist” demonstra ampla confiança no novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy - (nas edições anteriores havia criticado de maneira impiedosa o seu predecessor, Guido Mantega, sugerindo que fosse demitido) - que considera “indispensável” na fase atual da economia do país, devido à fraqueza política da presidente, apesar dos riscos de recessão e de redução das receitas, que poderiam comprometer o seu programa de gradual ajuste baseado num firme aperto fiscal. 

O longo texto, rico em dados e considerações econômicas que confirmam a seriedade dos problemas atualmente enfrentados pelo país, não recebeu comentários do governo, mas motivou o surgimento de dúvidas relacionadas com a possibilidade de existirem eventuais interesses que levariam a revista inglesa a se dedicar com tanta freqüência e obstinação aos problemas da economia brasileira. Entre as considerações mais explicitas, a favor ou contra o posicionamento da revista, se incluem aquelas levantadas pela edição on-line do “Jornal do Brasil”.

O JB lembra que no dia 18 de outubro de 2014 “The Economist” havia dado “seus palpites”, recomendando em editorial o voto em Aécio Neves, com o título “Why Brazil needs change?”. O texto fazia um balanço pessimista dos quatro anos de governo de Dilma e a capa da revista trazia a imagem de uma mulher estilizada à moda de Carmen Miranda, mas com ar aborrecida e frutas apodrecidas sobre a cabeça. Nas eleições anteriores, em 2010, por ocasião da votação do segundo turno o recomendado havia sido José Serra, do mesmo partido de Aécio Neves. E ainda, segundo afirma o JB ,o texto a favor de investimentos no Brasil, publicado um ano antes pelo “The Economist” ( aquele que na capa apresentava o “take off” do Cristo do Corcovado ) estaria refletindo o interesse em lucros rápido dos investidores estrangeiros preocupados com a crise financeira mundial: para tanto, entre os Brics tanto a China como Índia e Rússia eram apresentados sob uma luz desfavorável,na comparação com o Brasil .

Nesse contexto, o que pensar da recente decisão da agência americana Moody´s de rebaixar a nota da Petrobras do grau Baa3 para Ba2: foi pura coincidência a sua divulgação em concomitância com a publicação inglesa que focou o atoleiro em que caiu o país ? Segundo o JB esse seria mais um motivo para desconfiar também da “arbitrariedade das agências de classificação de risco, que se apresentam isentas e imunes a pressões políticas e econômicas.”