COMANDANTE CONTA A HISTÓRIA DA “TRAGÉDIA” DA VARIG

 

Sem aviso prévio apareceram em algumas livrarias cópias do livro “CASO VARIG – A história da maior tragédia da aviação brasileira”, dedicado pelo autor aos 1.300 aposentados e pensionistas do Aerus que faleceram sem receber todos seus direitos do plano oferecido pela empresa e mal administrado pelos funcionários responsáveis.

O livro é também dedicado aos mais de 600 pilotos brasileiros que, principalmente em decorrência da crise da Varig, tiveram que expatriar e atualmente voam em mais de 27 empresas estrangeiras.

A “história da tragédia” é contada pelo comandante Marcelo Duarte Lins em 401 páginas com anexas outras 12 com 36 fotos de personagens e de momentos dessa história. Essas fotografias, três por páginas, pouco acrescentam ao livro, pois além de pequenas são escuras e dificultam identificar nelas as imagens das respectivas legendas. Também a capa, ilustrada com a já famosa rosa dos ventos da Varig, não reflete o suposto conteúdo dramático do livro, editado pela Jaguatirica numa aparente tiragem reduzida e vendido por R$ 66.

Quanto ao seu conteúdo, a primeira impressão é que – apesar da farta documentação fruto de entrevistas e de paciente coleta de dados – o resultado final carece da dramaticidade enfatizada pelo titulo do livro, pois fatos e personagens aparecem numa sequência algo fragmentária, que não chega a envolver o leitor.

 Esta história da Varig, a partir de 1999,quando ocorreu a Conferência de Chicago que alterou a favor das empresas americanas o equilíbrio das relações aéreas, reúne informações, documentos e detalhes em maioria inéditos, obtidos de entrevistas com associações que em maioria eram contrárias à politica administrativa da cúpula da Varig: entre elas a Apvar, a Amvvar e a Acvar, cuja colaboração o autor agradece. Mas, pelo que se viu recentemente, são totalmente injustas as criticas a Graziella Baggio por suas interferências no problema do Aerus: de fato é devido a ela o reinício dos pagamentos aos aposentados, conseguido após o sucesso de uma ação judiciária custeada pelo Sindicato, que contou com o apoio de parlamentares amigos.

O drama da Varig, revisto quase dez anos após seu virtual encerramento, talvez merecia mais que a simples reprodução de acontecimentos. Numa comparação algo imprópria, havia matéria para ser desenvolvida num contexto mais ágil, como ocorreu por exemplo quando Truman Capote relatou os crimes que destruíram uma família, investigando e comentando todos os detalhes em seu famoso “A sangue frio”.

De fato faltam esclarecimentos que expliquem os motivos do crescimento vertical da empresa e a sua afirmação internacional, que decorreu em boa parte da qualidade do serviço de bordo e do atendimento dado aos passageiros; assim como faltam referências explicitas às influências negativas, internas e externas, das lutas entre os executivos de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro visando ganhar o controle total da empresa. E faltaram também referências mais pormenorizadas à importância determinante que na afirmação da Varig pertence à ação competente de executivos como Ruben Berta, Erik de Carvalho e Rubel Thomas, até chegar aos atos finais, com as proclamações de Bottini, o ultimo presidente da empresa regularmente eleito.

Mais de 70 anos de atividades da Varig e o acesso que o autor teve a documentos oficiais, entrevistas, recortes de jornais são material que merecia muito mais que uma simples reprodução de textos, pois é improvável que outro autor consiga reunir mais do que isso. À historia da “maior tragédia da aviação brasileira” faltam comentários essenciais que possam melhor explica-la, sendo verdade – como é varias vezes repetido no livro por personagens e setores que nela tiveram alguma participação - que as intrigas que causaram a sua destruição podiam e deviam ser evitadas.

Outra característica das 400 páginas de texto são as centenas de subtítulos que resumem o conteúdo de cada capítulo: além de interromper a fluidez do relatório eles diluem o interesse pela efetiva leitura do texto.

Resumindo: o autor merece elogios pela apresentação inédita de fatos sobre a Varig buscados através de entrevistas e da consulta de centenas de documentos. Pena que falte a tão rico material o incentivo literário que atrairia, além dos “ex” integrantes da companhia aérea, grande número de leigos, que ainda se perguntam por que o governo se fez cumplice da destruição de uma das empresas nacionais de maior prestígio no país e no exterior.