O LADO RETRÓGRADO DO AEROPORTO SANTOS DUMONT

 

A movimentada história de sucessos do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, não emociona os atuais moradores dos bairros da Urca, Laranjeiras, Botafogo, Humaitá entre outros próximos dessas áreas da cidade.

Como aconteceu na maioria dos grandes aeroportos, o crescimento do Santos Dumont não foi previsto com todas as complicações incluídas. Entre elas a crescente intensidade do apoio necessário para garantir uma navegação aérea segura; a complexidade do processo de decolagem e aterrisagem, cujo numero aumenta numa progressão geométrica; os problemas no solo, desde o cumprimento das pistas ao funcionamento das instalações, ao sistema de transporte das bagagens, e até o serviço de taxi para atendimento dos passageiros.

 No aeroporto doméstico do Rio e nos outros sob a administração da Infraero, entidade governamental chefiada durante décadas por recomendados políticos sem conhecimentos indispensáveis da aviação civil, somente os setores entregues aos técnicos tem funcionado, após a intervenção do Comando da Aeronáutica e, mais recentemente, graça à vigilância da Anac.

Mas o aeroporto doméstico do Rio, apresenta para centenas de milhares de cariocas uma grande inconveniência que não é decorrente de sua estrutura interna, mas é consequência de exigências operacionais que ferem diretamente os direitos dos cidadãos ao descanso diurno e noturno.

Esse problema aumentou juntamente com o crescimento operacional do Santos Dumont, oficialmente inaugurado em 1938, que com todos os seus problemas se tornou e ainda é o aeroporto doméstico de maior sucesso no Brasil. Suas glórias começaram em 1959,quando por iniciativa da Varig, Vasp e Cruzeiro nele nasceu a famosa Ponte Aérea Rio/São Paulo, que unificou as operações entre as duas capitais antes objeto de competição separada entre as empresas. O Electra da Varig, transportando cerca de 90 passageiros, foi a vedette por mais de 15 anos, transportando sem discriminação passageiros de qualquer companhia de posse do ticket Rio/São Paulo. Em 1991 começou a era dos jatos , com as operações de aviões  737-300 que para muitos  eram inadequados e até perigosas na área reduzida da pista sobre o aterro, além da proximidade  do Pão de Açucar. A Boeing, construtora do 737, até apresentou um projeto de ampliação do aterro, muito discutido mas não realizado. Após 1998, quando foi quase destruído por um incêndio, mas em poucos meses voltou a operar, o Santos Dumont recebeu uma nova ampliação e várias reformas, até a sua “edição” atual com 8 fingers.

O crescimento do tráfego doméstico concentrado no aeroporto do Rio, que chegou a 9 milhões de passageiros no ano passado, tem sobrecarregado em particular a rota de aterrissagem, que normalmente atravessaria a baia da Guanabara e a ponte Rio/Niterói. Em dias não determinados, de dia ou à noite, é operada a chamada Rota 2 e o barulho dos reatores que sobrevoam bairros populosos acorda crianças, impede falar ao telefone e anula os diálogos dos programas de televisão. Até obriga a interromper as missas na Congregação das Religiosas da Assunção, em Santa Teresa. O aparelho medidor dos barulhos chegou a registrar em volta de 85 decibéis, motivando a intervenção do Instituto Estadual do Ambiente que até multou sem sucesso a Infraero. Dizem que o recurso à Rota 2, aquela que atravessa vários bairros da Zona Sul é adotado quando há a ocorrência de fortes ventos ou por outras mudanças atmosféricas, além que pela concomitante chegada de vários voos à procura do caminho para a aterrissagem. Trata-se de uma providência justificável e até tolerável, se as aeronaves não voassem a alturas baixíssimas, produzindo um barulho elevado e até preocupando os moradores pela eventualidade do avião ter uma imprevista perda de altura que o faria esbarrar num dos prédios de 20 ou mais andares.

Para aflição dos moradores da Zona Sul havia também o barulho dos helicópteros, (atualmente muito reduzido) com tendência a crescer no anterior governo do Estado, que até mandou construir uma pista de pouso na sua sede do Parque Guinle, para uso próprio e dos visitantes. Agora as suas operações são concentradas em volta do Cristo Redentor, onde realizam voos panorâmicos.   

Falta dizer que os voos dos jatos na Rota 2 não acontecem somente de dia, quando é possível acompanhar o perfil e os logotipos das aeronaves que passam a talvez pouco mais de 100 metros de altura. À noite, até no mínimo 22h, chegam os retardatários: aí os vidros das janelas tremem e a televisão fica muda. E se em casa há crianças pequenas algumas acordam assustadas.

 Deve haver um meio para que o aeroporto Santos Dumont elimine de sua bela história esses acontecimentos que desagradam milhares de famílias que moram na Zona Sul. Por exemplo: obriguem as empresas aéreas a mudar de horários ou, nos dias de problemas meteorológicos, façam aterrissar as aeronaves no Galeão. Isso pode desagradar aos passageiros, mas eles são apenas algumas centenas, contra dezenas de milhares de moradores.